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Entrevista

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O Careto do meu Escritório
POR: ANDRADE LEMOS ...................................Publicado Terça-feira, Fevereiro 12, 2008

No tempo, este artigo já se encontra um tanto démodé ou futurista, pois o Carnaval já lá vai recentemente, ou ainda virá para o ano, consoante o rosto que Jano apresentar…

Há sensivelmente dois ou três anos foi-me oferecida, num dos Colóquios de Balsamão, uma figura, com os seus 20 cm, de um careto de Podence. Talvez o artesão não saiba a actual morada deste seu produto, mas penso que fica bem na minha biblioteca, não só pela beleza do colorido, mas porque me faz pensar no carácter cíclico do saber e da cultura. O silêncio do seu rosto impassível grita símbolos; a sua presença revela a eternidade da busca humana no constante renovar da natureza e da ciência.

Primeiro que tudo fala-me, como a toda a gente, da época do Carnaval. Vê-se o bouleversement da vida, a sua passagem pela morte, não como um fim mas como uma transição. Com efeito, nada prova a existência daquilo que denominamos morte; tudo, porém, nos sussurra transposições e transformações. E o careto é isso mesmo: a sua máscara indica outra pessoa, uma pessoa perecível; mas, por debaixo, a realidade mantém-se no intrínseco do ser humano. Tal como a relação entre personalidade e carácter que despertou versos tão vivos e sábios a Fernando Pessoa.

Como toda a mudança, o Carnaval finaliza um ciclo e contém, como em ovo, a realidade vindoura. Tal como a deusa celta Carna, ou a ninfa romana homónima, de cujo nome ele se aproveita. Ambas são vertentes do renascer, pois se a deusa se relaciona com as primevas favas, no decurso anual, a ninfa atraía os jovens e afugentava as maleficidades aos recém-nascidos. Violada Carna por Jano, que assim acabou com a sua virgindade, viu-se agraciada como poder que exerce, a partir de então, nos gonzos das portas.

Por isso favorece no Carnaval o ano natural que se encontra prestes a chegar. Depois, logo de imediato, recela-se no seu segredo restando-nos desejar-lhe: Carna, vale! Passa bem, até para o ano, ó Carna!

Voltando forçosamente ao meu careto, que, como sempre, vem mantendo o silêncio…
No cinturão preto, à volta da passagem do Ter para o ser, como ponto de partida para a obra alquímica e para a caminhada da vida, pendura sete sinos esconjurativos pelo som e pedagógicos pelo número, unindo a terra com o pensamento e integrando-nos na orgia cósmica da Divindade.

O seu fato possui três cores: o verde, o amarelo e o vermelho – o verde da passagem e da natureza e as cores alquímicas da obra perfeita, agitando-as o frenesim dionisíaco da actividade geradora e criativa. Nas mãos segura o cajado: o símbolo do fogo – vida e purificação!

O carapuço, na cabeça, lembra o pensamento e o sublime que devem ser guardados constantemente, Cai-lhe a ponta até à região da cintura indicando a lei do Eterno Retorno que, a tudo o que natural se confesse, ostenta e rege; não num circulo vicioso fechado mas numa abertura a propor a espiral.

O careto do meu escritório… o eloquente silêncio do ontem e do amanhã.

NOTA: Os artigos de opinião não refelectem a linha editorial do Notícias do Nordeste


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